E UM ÓTIMO 2012!!!
E UM ÓTIMO 2012!!!
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Processo de passificação de uvas na nas instalações da Masi, em Mazzano, Itália: técnicas vênetas serão usadas para produzir vinho num estilo semelhante ao do Amarone na Serra Gaúcha
A boa safra de 2011 na Serra Gaúcha rendeu 7500 litros de vinho elaborado com uvas passificadas das variedades Teroldego, Tannat, Ancellotta e Tempranillo que estão sendo usados para gerar o primeiro exemplar de um rótulo com tecnologia vêneta e alma brasileira. Uma espécie de Amarone de bombachas, embora os envolvidos na empreitada rejeitem, provavelmente com razão, esse tipo de definição simplista. De qualquer forma, o vinho agora em gestação é fruto de um projeto que junta uma grande vinícola italiana da região do Vêneto, a Masi, famosa por elaborar vinhos com uvas semi-secas, como o Amarone (e seu irmão doce, o Recioto), e um pequeno produtor de Bento Gonçalves, na Serra Gaúcha, a Vallontano. É uma daquelas associações do tipo David e Golias. A Masi faz vinho há seis gerações. É dona ou administra quase mil hectares vinhedos na Itália, sobretudo no Vêneto, mas também na Toscana, no Trentino Alto Adige e no Friuli, além de produzir rótulos na Argentina desde o início da década passada. Empresa familiar fundada em 1999 no Vale dos Vinhedos, a Vallontano tem 9,5 hectares de vinhedos e comercializa cerca de 40 mil garrafas por ano.
Por ora, ainda há incertezas sobre a constituição final do vinho, que deverá ter teor alcoólico de 13,5 graus. Ainda não está certo se ele será um blend das quatro variedades selecionadas ou de apenas uma ou algumas delas. Cada uma das quatro uvas escolhidas — totalmente distintas das usadas no Amarone, que é elaborado com as castas Corvina, Rondinella e Molinara — foi vinificada em separado depois de ter sido submetida por uns 25 dias ao processo de passificação, que concentra aromas e sabores. Durante o processo, as uvas foram mantidas em caixas de caixa de madeira num ambiente fechado. “Dependendo da variedade, as uvas chegaram a perder até 40% de sua água”, diz Zanini.
O Tannat e o Ancellota do novo vinho vêm dos parreirais da Vallontano no Vale dos Vinhedos. O Teroldego e o Tempranillo são oriundos de vinhedos da vinícola nos Caminhos de Pedras, um pedaço de Bento Gonçalves mais conhecido por seu belo casario de pedra e madeira, herança arquitetônica deixada pelos imigrantes italianos que chegaram à região no fim do século XIX, do que por seus parreirais. “A maturação nos Caminhos de Pedra, área um pouco mais alta, é mais lenta e colhemos ali as uvas em média uns 15 dias depois do que no Vale dos Vinhedos”, compara o enólogo da Vallontano. Em outubro deveriam chegar barris de carvalho francês, cada um deles com capacidade para 500 litros, onde o Amarone de bombachas deverá envelhecer. “Vamos começar o processo de amadurecimento do vinho e, se tudo se passar bem, poderemos colocar no mercado esse primeiro exemplar dentro de 18 meses’, afirma Sandro Boscaini, presidente da Masi.
Desde a safra de 2008, Zanini vem testando a produção de vinhos num estilo próximo do Amarone com apoio do pessoal técnico da Masi, que fez visitas periódicas à Serra Gaúcha assim como o brasileiro esteve na sede da empresa na Itália. Mas nem sempre o clima ajudou na empreitada. Em 2010, ano de uma colheita muito complicada, não deu nem para produzir os vinhos experimentais. Por sorte, 2011 foi uma safra melhor e deverá ser o marco inicial da produção em escala comercial do novo rótulo. Em 2011, a Masi, aliás, comemora 30 anos da criação de sua fundação cultural que tem como missão reconhecer e divulgar os valores do povo do Vêneto, quer ele esteja na própria terra natal ou no exterior. “O caso da população vêneta no Rio Grande do Sul é emblemático”, comenta Boscaini. “Decidimos dar reconhecimento a eles e introduzi-los na cultura vêneta do vinho.”
Ou, em outras palavras, estimulá-los a plantar novas variedades além das de origem francesa (Cabernet Sauvignon, Merlot e Chardonnay) e a produzir vinho com as técnicas de passificação que consagraram o Amarone. O objetivo da Masi é mostrar aos produtores brasileiros que pode ser mais vantajoso fazer isso e elaborar um vinho com personalidade do que seguir o padrão internacional do mercado e “lutar contra muitas diferentes áreas de produção, onde muitas vezes as condições de clima e solo para a viticultura e também os custos são muito melhores”.
O enólogo da Vallontano, cuja família é de origem vêneta, conta que a amizade do padre gaúcho Don Ivo Pasa, originário de Farroupilha e atualmente vice-diretor do Ospedale Sacro Cuore Don Calabria em Negrar (Verona), com a família Boscaini também foi um estímulo para que a vinícola italiana cogitasse iniciar o projeto no sul do Brasil. “Depois de muitas visitas à área e conhecer grandes e pequenos produtores, encontramos na Valllontano o parceiro com a sensibilidade certa, o alto profissionalismo e o foco na qualidade que procurávamos para colaborar com nosso projeto”, diz o presidente da Masi. Agora é esperar para ver como vai ser esse novo rótulo num estilo próximo ao do Amarone, que provavelmente será comercializado pela importadora Mistral, responsável no Brasil pelas vendas dos vinho da Masi e da Vallontano.
* Esta reportagem foi publicada na edição 143 da revista Bon Vivant.
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Tags: Itália, Masi, Serra Gaúcha, Vallontano, Vêneto, Vinho brasileiro

Parra numa calicata: buracos no solo para estudar o terroir
O chileno Pedro Parra foi para a França em 1997 perseguir seu sonho: ser músico de jazz, saxofonista profissional. Não deu certo. Mas hoje, aos 41 anos, Parra, que significa videira em espanhol, não pode dizer que a viagem foi em vão. Na Europa, aprendeu a beber, virou especialista em solos e, sete anos mais tarde, obteve seu PhD em terroir. Na lista elaborada neste ano pela revista inglesa Decanter das 50 pessoas mais influentes do mundo do vinho, o chileno, que agora é consultor de terroir de quase uma quinzena de vinícolas em seu país, na Argentina, na Itália e na Califórnia, ocupa a 49ª posição. No ranking 2011 da publicação, há apenas outros dois sul-americanos, o produtor argentino Nicolás Catena, que dispensa apresentações, e Eduardo Guilisasti, gerente geral da gigante chilena Concha y Toro.
Oriundo de Concepción, no sul do Chile, onde mora, Parra veio ao Brasil pela primeira vez no fim de junho para falar de seu trabalho em geral e também do Projeto Terroir que toca para a Viña Altos Las Hormigas, de Mendoza, um de seu clientes, cujos vinhos são trazido ao Brasil pela importadora Mistral [Depois de feita esta entrevista, Parra já esteve novamente no Brasil] . Talvez ele preferisse discorrer sobre jazz e discos de vinil, duas de suas paixões, ou da pequena linha própria de vinhos que elabora no Chile. Mas, como não podia deixar de ser, a conversa com o BV foi em torno do tema que o projetou internacionalmente: terroir. Um conceito por vezes fluido, de difícil apreensão, que pode ser sintetizado grosseiramente como a assinatura estilística, a tipicidade, que um lugar, por meio de seu clima, de seus produtores e de seus terrenos, pode conferir a certos vinhos.
Por que resolveu estudar terroir?
Foi uma sorte, coincidência. Estudei engenharia florestal, mas não gostava disso. Mas era amigo, de jogar futebol, de um enólogo, Marcelo Retamal, hoje chefe de uma vinícola conhecida, a De Martino. Estávamos juntos na universidade, no sul do Chile, em Concepción, que é o centro, o motor, do país. Tudo se cria em Concepción, a música, mas o dinheiro, eles roubam em Santiago. Quando terminei a universidade, quis viajar, sair do Chile e ser saxofonista. Mas meus pais não deixaram. Meus pais, meus tios, meus primos, todos eram advogados. Ganhei uma bolsa de mestrado da embaixada francesa para ir a Montpellier, onde também está a escola de jazz de Michel Petrucciani (1962-1999), que foi um grande pianista.
Não foi a Montpellier, que é um conhecido centro de pesquisa em viticultura e enologia, por causa do vinho então?
Não. Mas fui para a Escola de Agronomia de Montpellier, que é muito boa. Meu mestrado era sobre agricultura de precisão, embora eu não soubesse nada disso. Fui também à escola de jazz, mas houve um problema. Vi um garoto de doze ou treze anos que tocava mil vezes melhor do que eu, que tinha quase 30 anos. Depois de um mês na escola de jazz, vi que não tinha opção. No Chile eu era bom (saxofonista). Em Montpellier, era um zero. Tinha que fazer escalas (musicais) e não conseguia. Saí do jazz e fui fazer meu mestrado. Ao terminá-lo, tinha de fazer uma tese, um trabalho final. Fui ao Instituto Nacional Agronômico de Paris para trabalhar sobre o meu tema e lá havia um moça, ao meu lado, que fazia um mestrado em solos e ajudava outra moça que fazia o doutorado em terroir. A moça que fazia o doutorado era Emmanuelle Vaudour, que fez um livro muito bom sobre terroir, financiado pela região das Côtes du Rhône. Isso foi no ano de 1998. Nesse momento, começam a me convidar para degustações de Syrah e Grenache.
Até esse momento você não bebia vinho regularmente?
Não bebia nada, nem vinho, nem conhaque, nem whisky – e eu já tinha 29 anos. Gostei muito do tema. Quando voltei ao Chile, comecei a trabalhar com o assunto mesmo sem saber muito de terroir. Isso foi em 1999. Mas ainda não era o momento. Ninguém se interessava ou falava de terroir.
O que diziam no Chile?
Não conheciam o assunto ou não queriam conhecer. Não sei ao certo. Depois disso, em 2001, já casado e com um filho, voltei para essa mesma escola em Paris fazer o doutorado. Eu tinha apoio de uma empresa, a Concha y Toro (maior produtora de vinhos do Chile), para fazer um trabalho com seu vinho Don Melchor. Mas tive muitos problemas nesse primeiro ano. A Concha y Toro não me enviava informações sobre o vinho, como a madurez da uva, dados geológicos ou climáticos. Não entendia por que não me chegava nada. Hoje vejo que esse período foi muito bom para mim. Tive um ano em que pude estudar muito e entrar no tema terroir. No segundo ano, chegou muito informação e comecei o trabalho de campo, mais prático. Assim entrei no tema. Foi uma sorte.
Como foi o início da vida de consultor de terroir?
Quando voltei ai Chile, em janeiro de 2005, não tinha trabalho. Na verdade, tinha um trabalho, que era ser consultor de uma vinícola, a De Martino.
Do seu amigo, Marcelo Retamal.
O único que me contratou foi o meu amigo. Ela tinha me contratado em 2003 para começar um projeto que se chamava Single Vineyard para De Martino, que hoje dá bons vinhos. Mas eu e Marcelo tínhamos uns 34 e 35 anos. Éramos como insetos, um nada na indústria de vinho do Chile. Foi uma época muito violenta devido à personalidade do Marcelo e da minha. Para sobreviver, fomos muito agressivos. Mas a tática funcionou.
Como era essa agressividade?
Por exemplo, Marcelo conduzia uma degustação de seu vinhos para enólogos jovens e um desses enólogos lhe dizia que o vinho estava bom. Marcelo respondia que, sim, o vinho era bom e vinha de um terroir assim ou assado. Se um enólogo dizia que não entendia o conceito, Marcelo dizia que esse enólogo não entendia nada. Éramos assim. Viajávamos juntos e empurrávamos o conceito de terroir. Nessa época, se juntou a nós um outro amigo, que era mais jovem, Rodrigo Soto, da vinícola Matetic, que fica no vale de San Antonio. Um quarto amigo se juntou depois, Felipe Toso, da Ventisquero. Depois um quinto, Felipe Müller, que hoje é enólogo da Viña Tabalí. Chegamos a ser doze. Entre janeiro de 2005 e janeiro de 2007, éramos doze que todo dia falávamos o mesmo, que o terroir era isso, que o terroir era aquilo. Desde então, o número de pessoas que falam de terroir no Chile se multiplicou. Isso foi muito bom pois gerou uma ruptura mental muito boa no Chile. Acho que hoje a enologia chilena pode ser dividida em antes e depois do Marcelo. Hoje todos querem ser o Marcelo. Mas o Marcelo está sempre um ou dois anos à frente dos outros. Marcelo me ajudou muito no trabalho com o terroir e eu também o ajudei demais. Esse esquema funcionou bem até 2007, quando cada um foi cuidar mais do seu próprio espaço. Em 2007 ou 2008, conheço o Alberto Antonini (enólogo e um dos donos da Viña Altos Las Hormigas) e começo o trabalho na Argentina e depois na Toscana.
Qual é o seu conceito de terroir?
Para mim, o terroir é um pedaço espacial em três dimensões, abaixo, acima e ao lado, que gera uma tipicidade. A escola europeia e eu damos a maior importância à “genética” do terroir, que é essencialmente a geologia.
A geologia é mais importante que o clima?
Não. Em primeiro lugar vem o clima, que dá um pouco da tipicidade aromática. Falo do que acredito. O clima dá o aroma. O solo, o tanino. Posso ter um solo calcário extraordinário num clima tropical no qual dificilmente consigo fazer um Pinot Noir. Creio, portanto, que o clima manda na geologia. Posso ter um clima muito bom e um solo muito ruim e, ainda assim, consigo fazer um Pinot Noir. Não é o melhor Pinot Noir, mas eu o faço. Se eu fosse começar um projeto, como me aconteceu no Chile, primeiro buscaria o clima. Há muitas formas de entender o clima. Tenho a minha forma pessoal de entendê-lo e outras pessoas têm outras formas. Por exemplo, como se pode definir o que é um clima frio. A resposta pode ser muito ampla. Amigos meus dizem que o Vale de Leyda (Chile) é frio. Sim, é frio, mas lá se fazem vinhos com 15,5 graus de álcool. Portanto, a relação entre frio e álcool, entre frio e açúcar, não é bem assim. A relação é entre frio e acidez. Há muitas opções dentro da família dos climas frios. Qual é o frio de que você gosta? Vale do Limarí, Casablanca, Leyda (todos no Chile) são áreas frias. O Vale do Uco (Mendoza) também. Que tipo de frio eu quero?
O que faz, por exemplo, dois lugares frios serem diferentes? A geologia?
Acho que dois fatores contam. O primeiro é a geologia e o segundo é o homem. Sem o homem não há vinho. Portanto, sem o homem não há terroir. De certa forma, o homem é o centro do terroir. Pode tornar o terroir muito ruim ou muito bom. Um exemplo. Até quinze anos atrás, Clos de Tart (um vinhedo de Pinot Noir com o status legal de grand cru, o mais alto na Borgonha), era um terroir muito ruim. Hoje é extraordinário. O que aconteceu? Mudaram o homem que cuidava da terra. O anterior não entendia o terroir. O de hoje entende.
Você acredita que o terroir é uma construção humana?
Não. É uma interpretação humana. Mas é preciso entendê-lo.
Mas quando alguém move terra e coloca pedras num lugar não está construindo um terroir?
Sim, nesse caso sim. Isso geralmente se faz pouco, com exceção da França, onde se faz muito isso por uma questão de dinheiro. No Chile e na Argentina, onde tenho experiência, não se constrói um terroir. Não conheço exemplos muito bons de construção de terroir. Há alguns em St- Émilion (uma sub-região de Bordeaux). Mas construir um terroir é caro e toma tempo. Esse não é meu objetivo. É mais fácil procurá-lo (na natureza).
Como se diferencia um vinho que expressa um terroir de outro que não expressa?
Para alguém que está no dia a dia do vinho, é fácil diferenciar. Para um consumidor, é muito difícil. Isso porque é preciso conhecer a tipicidade que um terroir entrega sem maquiagem, o que é difícil. Por maquiagem, entendo todas as operações humanas que intervêm num vinho, que modifica sua tipicidade, como as práticas enológicas, o uso de barricas de carvalho. O que faz uma barrica é apagar a origem do vinho e entregar outra coisa. A (levedura) Brettanomyces faz com que todos os vinhos fiquem iguais. O terroir é uma expressão da qual você pode gostar ou não. No Chile, há um terroir famoso, que pertence à Casa Lapostolle. É famoso porque há 50 anos dá uma tipicidade horrível e um vinho horrível. Como terroir é fantástico. Não mudou nada em 50 anos. Mas o resultado é horrível. Dá um Cabernet Sauvignon “intomável”, com uma tipicidade que não muda. Um terroir pode ter cheiro de pé ou de violetas, mas é sempre um terroir.
Mas boa parte dos grandes vinhos passa muito tempo em barricas.
Sim, mas não todos. Philippe Pacalet, (produtor) da Borgonha, utiliza apenas barricas com três anos de uso. E faz grandes vinhos.
Mas os grandes de Bordeaux usam muita madeira.
Mas Bordeaux é Bordeaux. A pergunta que se deve fazer é: há terroir em Bordeaux? Diria que depende. Se perguntar a Claude Bourguignon (especialista francês em solos), ele dirá que não. Eu digo que sim. Mas o problema em Bordeaux é que eles misturam tudo, fazem uma maquiagem e lançam um produto. Se você quer um conceito mais puro de terroir, deve ir às Côtes Du Rhône, a alguns produtores da Borgonha, da Alsácia. Não tem que ir a Bordeaux.
Muitas pessoas pensam que um tipo de solo dá um tipo de aroma específico num vinho. As coisas são assim mesmo?
Não. Cinquenta e oito por cento dos solos vitícolas franceses são calcários. Um por cento dele é extraordinário. Os outros 57% são mais ou menos. Portanto, a palavra calcário sozinha não quer dizer muita coisa. Mas calcário com um complemento e mais outro complemento significa, sim, alguma coisa. É preciso especificar que tipo de calcário se tem, como ele se fraturou, qual é quantidade de calcário ativo tem calcário, que solo há acima dele. Uma coisa é dizer que se tem um solo calcário do Kimmeridgiano, com fraturas horizontais, com pedras presentes na argila e 22% de calcário ativo e uma inclinação de tantos porcento. Essa é a descrição de um terroir.
Como é o seu trabalho? É feito mais em campo?
Trabalho por etapas. O mais importante para mim é entender a “genética” do lugar. Essa tarefa pode demorar um dia ou um ano. Depende de muitas coisas. Em termos técnicos, precisa saber qual é a litologia (estudo da natureza das rochas) de uma região. No Priorato, é xisto. Na Borgona, calcário. Em St-Émilion, calcário. No Douro, xisto. Em Hermitage, granito. Esse é o primeiro passo. Conhecendo a genética, posso ter uma ideia do que é ou pode ser o vinho. Calcário em ladeira dá elegância, profundidade, ataque. Xisto dá ataque, elegância, profundidade. Granito dá vinho gordo. Argila dá vinho suave e gordo. Se sou o dono de vinícola e gosto dos vinhos gordos, como os do Vale do Napa (Califórnia), não posso comprar uma ladeira de calcário. Não posso ir nessa direção. Teria que comprar uma ladeira de granito por razões técnicas. A tipicidade em boca também está associada a uma tipicidade de odor porque madura mais tarde. E se madura mais tarde, dá uma família de odores, tende mais a fruta negra do que a fruta ácida. Se sou, por exemplo, o enólogo de Screaming Eagle (famoso produtor de Napa), busco um vinho com fruta negra, potência, álcool, gordo. Busco, nesse caso, uma família de terroir. Quando entendo que família de terroir há numa região, posso dar o passo seguinte.
Qual é o próximo passo?
Quando comecei a trabalhar com Alberto na Altos Las Hormigas, precisei entender quantas famílias de terroir havia em Mendoza, se um, dois ou dez. Se eu perguntava para um mendocino, me diziam que era tudo igual. Mas hoje posso dizer com facilidade que há 50 ou até 100 terroirs em Mendonça. Só em Agrelo deve ter uns dez. Se formos mais longe e colocar mais distritos, aparecem uns quinze. O mendocino diz que a única diferença é a altitude de cada vinhedo. Mas não é assim. O que é verdade é que 100% da formação dos terroirs de Mendoza vem dos Andes. É a mesmo história geológica em geral. Mas dentro desses sistema muitas coisas ocorreram. O que sei fazer é dividir essa história geológica em duas: ou é geologia ou não é geologia. Esse segundo caso eu chamo de geomorfologia. Se é geomorfologia, significa que os processos ocorreram ontem, porque vêm das glaciações. Se é geologia, significa que é velho, é por fraturamento, por formas. Se é geomorfologia, é plano, com formas suaves. Isso muda tudo, é como distinguir uma loira de uma morena. No Chile, há muita geologia. Em Mendonza, não é geologia, é só geomorfologia. Depois vem o segundo passo. Como são os vinhos de geologia e os de geomorfologia. Se você entrar numa grande loja de vinhos, verá que uns 85% dos grandes vinhos vêm de geologia. Apenas uns 15% vêm de geormofologia. Se estou em geologia, trabalho de uma forma. Se estou em geomorfologia, trabalho de outra. Preciso ver antes de tudo onde estou. Depois que entendi isso, tudo fica mais fácil.
Como trabalha na Altos Las Hormigas?
Nessa propriedade, há uma mudança de escala. Deixei a região de Mendoza e passei a trabalhar num vinhedo. Portanto, saí do macro e entrei no micro. Nessa escala, a questão é: se tenho dois vinhedos dentro de uma mesma unidade, preciso concluir se eles são iguais ou se são duas coisas distintas. Se são diferentes, onde eles se separam. Quando já existe essa separação, é preciso então fazer observações detalhadas do solo e do subsolo, analisar a história do vinhedo e do vinho. É como um médico que faz uma tomografia. é preciso ver o que caracteriza a zona A e a zona B. Então é possível fazer um avaliação se o vinhedo é bom, mais ou menos ou não tem solução. Se acho que um terreno é muito bom, mas o Alberto me diz que o vinho é apenas bom, isso é um sinal de que há algo errado. Ou eu errei no meu julgamento ou se passa algo que faz com que a planta nesse vinhedo não atinja todo o seu potencial. Por que o vinho é apenas bom e não muito bom? Me dizem que falta profundidade de boca. Isso já me ajuda. Três ou quatro coisas podem provocar a falta de profundidade, como uma planta ruim (nesse caso, tem de cortar e plantar outra), pode ser que a planta foi mal trabalhada por dez anos e se estressou. Ou pode ser falta de ar para oxigenar o solo. Pode ser falta de argila com areia no solo. Pode ser que a argila se foi, se lavou e se lixiviou. Em alguns casos, há solução; em outros, não. É uma família de problemas. Tem que começar a descartar o que pode ser ou não.
Trocar de cepa pode ser uma solução?
Em alguns casos, sim. Esse é um problema clássico. Mas cortar e trocar a cepa é uma solução muito cara. Há também indicadores que precisam ser analisados. Por exemplo, onde há Cabernets com êxito num mundo?. Faça o ranking. Aparece Bordeaux, depois Napa. O que há em comum entre esses terroirs? Em geral há sempre pontos em comum. Daí você pode ver que o Cabernet cresce geralmente numa determinada família de condições. Um Pinot Noir cresce em outra família. Uma Grenache em outra. Há variedades que são mais difíceis e outras mais fáceis.
Como trabalha com uma variedade pouco conhecida?
É difícil. Não se sabe o que fazer, pois não há história. Para avaliar um vinho de um terroir totalmente desconhecido demora uns quinze anos. Tem que plantar, avaliar, esperar a planta atingir uma madurez. Muita gente planta, avalia o vinho no terceiro ano e acha que está ruim. Minha experiência mostra que muitas plantas que começam mal podem terminar bem. As que começam bem podem terminar mal.
Como convence um produtor a investir no conceito de terroir?
Minha experiência é por meio da educação. A melhor forma é ensinar o dono (da vinícola) a tomar vinho. Acontece muito no Chile o seguinte: você é contratado, começa o projeto e só então descobre que o dono não sabe o que está buscando. A reposta muitas vezes é: quero o melhor vinho. A realidade da Europa e do Novo Mundo em termos de cultura do vinho e degustação é muito distinta. Na Europa as pessoas estão familiarizadas com o vinho de uma forma que não estamos na Argentina, no Chile e na África do Sul. Muitas vezes acontece de o dono do dinheiro ter participado um dia de um jantar onde tomou um Petrus, um La Tâche, um vinho de três mil dólares, e depois volta para o seu país e diz que quer fazer o mesmo vinho. Mas a pessoa não valoriza o vinho por que gosta, mas sim por que é caro. Às vezes, quando tenho tempo, viajo com o produtor à França, fazemos degustações. Eles precisam descobrir os vinhos por eles mesmos. Se não parece que tudo é uma bobagem. Quando ele sente um aroma ou algo sem que alguém tenha de dizê-lo, ele se sente um pouco como o enólogo. Aí começa um jogo. Então o dono começa a comprar vinho e a se interessar. Tenho um cliente meu, famoso no Chile e com muito dinheiro, que me ligou um dia de Nova Iorque e me disse: “Quero comprar Pinot Noir. O que compro?” Aí eu disse compre esse, compre aquele. Se o produtor dá esse primeiro passo, é porque ele já comprou a sua ideia de terroir. Essa é a parte mais difícil. Quando a pessoa entende isso, passa a ver o seu próprio projeto de outra forma. Ele já não quer fazer simplesmente o melhor vinho. Ele passa a ter um foco. Isso se chama educação. É preciso gastar tempo e energia, as pessoas querem aprender.
Vinhos de terroir têm de ser sempre caros?
Por dez ou doze dólares pode se comprar vinhos de terroir muito bons no Chile. Na Borgonha se pode comprar vinhos de terroir não muito caros também. Os vinhos até podem não ser tão bons, mas são de terroir. Vinho de terroir não é a mesma coisa que vinho bom. Tenho um amigo em Bordeaux, em Margaux (sub-região), que é dono do Château de Graviers. Ele é biodinâmico. O vinho é uma Ferrari. Vale 15 euros. Ninguém o conhece. Mas o vinho é expressão do plateau de Margaux numa garrafa.
Em busca dos terroirs de Mendoza
Italiano da região do Chianti, na Toscana, o enólogo e consultor Alberto Antonini, um dos sócios da vinícola Altos Las Hormigas, de Mendoza, resolveu contrariar uma máxima do futebol — e decidiu mexer num time que está ganhando. “A hora é agora enquanto as coisas vão bem”, diz Antonini. Ao lado de outras vinícolas de ponta da Argentina, a Altos Las Hormigas cresceu e se tornou conhecida internacionalmente na década passada graças aos seus bons vinhos ancorados na uva Malbec, casta de origem francesa que se tornou a cara da vitivinicultura do país vizinho e caiu no gosto do consumidor moderno. Mas hoje todo mundo produz Malbecs e é iminente o risco de os vinhos varietais, baseados nessa cepa, se tornarem uma commodity, um produto de base com preço e qualidade quase uniforme. Diante dessa inquietação, Antonini deu o pontapé inicial em 2008 no que chama de Projeto Terroir e contratou os serviços do consultor chileno Pedro Parra. “Já tinha conversado com outros especialistas em solos, mas havia sempre um problema”, conta Antonini, que acompanhou Parra em sua visita a São Paulo. “O sujeito entendia de geologia, mas não de vinho. Pedro entende das duas coisas.”
Com a experiência de 15 anos elaborando vinho em Mendoza, tendo adotado a agricultura orgânica nos últimos tempos, Antonini está fazendo um trabalho de macro e de microzoneamento de seus vinhedos na região com a ajuda de Parra, que escava grandes buracos no terreno, as calicatas, para estudar as características de cada pedaço de chão. Os solos de Mendoza são aluviais e foram formados pela ação da água de degelo dos Andes, que aportou diferentes elementos e camadas a distintas partes da região. O levantamento dos terroirs mendocinos ainda está no início. Mas os primeiros resultados já levaram a Altos Las Hormigas, que produz anualmente 700 mil garrafas de vinho, a lançar novos rótulos, provenientes de vinhedos mais específicos. O número de Malbec produzidos soltou de dois para quatro. A vinícola manteve seu rótulo de base, o Malbec Classico (hoje na safra 2010), e o antigo reserva foi renomeado para Terroir Valle do Uco. Foram acrescentados à linha dois vinhos tops, o Reserva Valle do Uco 2008 e o Vista Flores Single Vineyard 2006 (feito com fruta oriunda apenas dessa localidade). Fora a linha de Malbec, a vinícola produz ainda um tinto básico à base de Bonarda (o Colonia Las Liebres). Antonini espera que o estudo dos terroirs de Mendoza leve à criação de um sistema de denominações de origem na região argentina.
* Esta é uma versão bem maior de uma reportagem publicada na edição de número 142 da revista Bon Vivant
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Tags: Alberto Antonini, Alto Las Hormigas, Argentina, Chile, Mendoza, Pedro Parra, Terror
Ganhou destaque ontem em jornais da Itália a queixa de um produtor de espumantes da província de Treviso, a azienda Battistella, que reclama de concorrência desleal da parte de seus colegas do Brasil. Motivo da querela: os produtores brasileiros fazem espumantes com a uva Prosecco (hoje oficialmente denominada Glera) e o vendem com o nome de Prosecco. Nas reportagens que ganharam a imprensa italiana, o caso citado é o do espumante Prosecco elaborado pela Cooperativa Garibaldi, situada na cidade de Garibaldi, na Serra Gaúcha.
O jornal Il Gazzettino, do nordeste da Itália, esbraveja em dobro, pois diz que o espumante brasileiro se apropria de ”dois campeões nacionais”, dos termos Prosecco e Garibaldi (herói da unificação italiana na segunda metade do século XIX que também teve importante passagem pelo Brasil). A reportagem ainda lembra que em outros países o termo Prosecco também é explorado. Na Austrália, há uma rota do Prosecco. Na Alemanha, é possível comprar espumantes chamados Prisecco.
Os italianos se acham no direito de reclamar porque, há 2 anos, mudaram a legislação: alteraram o nome da uva Prosecco para Glera e transformaram o termo Prosecco como designação de uma região produtora de vinhos espumantes. Como a legislação internacional protege áreas geográficas demarcadas para a produção de vinhos (o termo Champagne é, por exemplo, de uso restrito dos produtores da região francesa denominada Champagne), ninguém mais no mundo poderia usar o termo Prosecco nos rótulos (veja reportagem sobre a mudança).
Alguém se anima a tomar um espumante chamado Glera? Parece nome de doença.
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Tags: Espumantes, Garibaldi, Itália, Prosecco, Vinho brasileiro, Vinícola Garibaldi

Il Colombarone, da Tenula La Viola, um dos tintos à base de Sangiovese que tentam ganhar mercado internacional
Com 4, 4 milhões de habitantes, a Emilia-Romagna é uma rica região administrativa do norte da Itália, definição mais ou menos equivalente ao conceito de estado no Brasil. É uma criação recente, precisamente de 1970, quando foram unidas politicamente duas sub-regiões distintas, a Emilia, a oeste, e a Romagna, a leste. Sua capital é Bologna, cidade com tradição humanista, de esquerda, terra onde surgiu o mais famoso molho usado para escoltar massas e também a universidade mais antiga do mundo. Bologna costuma ser também citada como um marco informal das fronteiras que separam a Emilia da Romagna.
Ninguém parece saber com exatidão onde termina uma e começa outra. A afirmação é um exagero, mas há um ditado popular que brinca com essa questão e mostra as diferenças culturais entre os moradores das duas áreas. Se, ao entrar numa casa, um visitante recebe um copo de água, ele está na Emilia. Se, prossegue o adágio, ganha uma taça de vinho, está na Romagna. Para o romanholo, a chegada de alguém é motivo de festa – e é nesses momentos, não no dia a dia, que ele costuma abrir uma garrafa de tinto. A Romagna gosta de projetar para si mesma uma imagem acolhedora, associada ao vinho. Mas essa percepção não é muito forte fora dos limites locais.
Os maravilhosos carros superesportivos de luxo (Ferrari e Lamborghini), o aceto balsâmico (de Modena), o queijo parmesão (o original) e o presunto (o de Parma, claro) – todos esses produtos de prestígio internacional são, a rigor, típicos da Emilia, não da Romagna. Até o popular Lambrusco, um frisante sem prestígio produzido em quantidades industriais, vem da porção ocidental da região. O que teria então a Romagna a oferecer ao mundo em matéria de vinho?
A resposta, óbvia, é tintos à base da uva Sangiovese e brancos ancorados na casta Albana. Se essas são as armas da região, a batalha não será fácil. A Sangiovese, uva de reconhecidas qualidades, é a essência do Chianti Classico, do Brunello di Montalcino e do Vino Nobile di Montepulciano, três dos mais renomados tipos de vinhos da vizinha Toscana, com a qual a Emilia-Romagna mantém, ao sul, uma grande fronteira geográfica, pontuado pelos montes Apeninos, e uma pequena crise de identidade enológica. Pouca gente deve pensar no Sangiovese di Romagna, o tinto mais ambicioso da região, quando ouve a palavra Sangiovese. A Albana … Bem, levante a mão quem conhece a Albana, uva típica da Romagna que gera vinhos secos, meio-doces, doces e até espumantes. A batalha então está perdida? Não necessariamente.
Um giro rápido pela Romagna – realizado no final de fevereiro a convite de uma associação de oito produtores locais de vinho, a Convito di Romagna, e do Consorzio Vini di Romagna, que reúne quase 100 produtores e 4.900 plantadores de uva – mostra que os melhores Sangiovese locais não têm do que se envergonhar, embora a qualidade média da produção local nem sempre seja impressionante. No caso dos Albana, os exemplares mais interessantes parecem ser os elaborados com uvas passificadas, no estilo vinho doce de sobremesa. Os brancos secos feitos com essa casta não têm muita complexidade, mas podem ser frescos, agradáveis e fáceis de beber.

Maria Cristina Geminiano, enóloga e membro da família que detém a Fattoria Zerbina
Um produtor realmente bom, como a Fattoria Zerbina, situada em Marzeno di Faenza, nos arredores da cidade de Faenza e a 30 quilômetros do mar Adriático, prova que os vinhos da Romagna podem ter classe internacional. Maria Cristina Geminiano, enóloga e membro da família que detém uma bela propriedade de 80 hectares desde 1966, fala sobre as características da Sangiovese romanhola. “Aqui temos um solo mais argiloso do que na Toscana”, diz Maria Cristina, cujos vinhos (alguns) são trazidos ao Brasil pela importadora Vinci. “Nosso (vinho) Sangiovese é mais frutado, claro, talvez com um pouco menos de estrutura. Mas pode alcançar o mesmo nível de qualidade.” A degustação de uma prova de barril do Pietramora Sangiovese di Romagna Riserva Doc da safra 2010, o tinto top da vinícola, atesta a seriedade do vinho. Além da uva que lhe dá o nome, o Pietramora tem, no máximo, 3% da casta Ancellotta e envelhece em barris de carvalho francês de 225 litros.
Mais surprendente ainda é o Scaccomato 2006, o melhor vinho de sobremesa da Zerbina. Em português, o nome do vinho quer dizer xeque-mate, o que explica o tabuleiro de zadrez no rótulo. Feito com uvas Albana colhidas tardiamente e atacadas pela chamada podridão nobre — como no caso dos Sauternes franceses, a ação do fungo Botrytis cinerea concentra o açúcar da fruta e gera um aroma particular —, o Scaccomato é um vinho que impressiona. “A Albana é uma uva ácida e, em alguns anos, pode ser atacada pela podridão nobre”, diz Maria Cristina. A Zerbina, que produz anualmente cerca de 220 mil garrafas de vinho, faz um segundo rótulo de sobremesa, o Arrocco, cujas uvas foram apenas parcialmente afetadas pelo fungo.
Na história da Albana, variedade aparentemente nativa da Romagna, há um lance típico do jogo de interesses que, às vezes, está associado à criação de áreas legalmente demarcadas para a produção a vinhos na Itália, as chamadas DOCs (Denominazione di Origine Controllata) e as DOCGs (Denominazione di Origine Controllata e Garantita). Em teoria, vinhos DOCGs deveriam ser melhores do que os DOCs. Isso porque, numa zona DOCG, o potencial qualitativo das uvas provenientes desse lugar, devido a uma série de fatores naturais e a restrições legais, deveria ser maior do que numa DOC. Para surpresa de muitos, foi criada em 1987 a primeira DOCG para vinhos brancos na Itália: o status da antiga e modesta DOC Albana di Romagna, que atualmente compreende uma zona de produção com 853 hectares de uva plantados entre Bologna e o balneário de Rimini, foi elevado a essa nova categoria.
Mas, deixando a Albana de lado, a Romagna gosta de se definir como a terra da uva Sangiovese. A outra terra da Sangiovese, bem entendido, já que essa uva está indiscutivelmente associada à Toscana. Houve (e há) quem até mesmo diga que essa variedade surgiu na Romagna, e não na Toscana, embora o tema seja passível de intensos debates. De concreto, sabe-se que as fronteiras entre as duas regiões foram móveis no passado e partes da Romagna de hoje formavam a Toscana de ontem. “A Sangiovese nasceu nas montanhas, entre a divisa da Romagna e da Toscana”, afirma Giovanna Gelmi Drei Donà, proprietária da Drei Donà Tenuta La Palazza, uma bela propriedade com 27 hectares de vinhas cultivadas nas colinas entre as cidades de Forli, Castrocaro e Predappio, na boca do vale entre os rios Rabbi e Montone. “Estamos na mesma altitude da Toscana, mas temos os ventos do mar. Começamos a colheita uns 15 dias antes do que lá.” Num dia de sol, sem névoa, é possível ver o Adriático das terras da Drei Donà.
Embora alguns questionem onde exatamente surgiu a Sangiovese, os romanholos admitem que seus vizinhos da Toscana sempre foram a grande referência na elaboração de vinhos com essa casta. “Há uns 30 anos, não era possível encontrar um bom Sangiovese di Romagna”, afirma Giovanna, que produz 150 mil garrafas por ano, três quartos delas para exportação. O Pruno, um Sangiovese Riserva envelhecido por 18 meses no carvalho, é o vinho número um da casa. Seu irmão menor é o Notturno, também 100% Sangiovese, que é vendido dentro da categoria IGT(Indicazione Geografica Tipica). Mais aberta às castas francesas, a Drei Donà elabora um tinto 100% Cabernet Sauvignon com passagem por madeira, o Magnificat, que é vendido na Itália mais ou menos pelo mesmo preço do Pruno, cerca de 20 euros. É uma boa compra, mas melhor ainda é o branco Il Tornese, um blend composto geralmente de 85% Chardonnay e 15% de Riesling. Com acidez, mineralidade e levíssimo toque tostado, a safra 2009 desse vinho é uma delícia e uma pechincha (entre 7 e 10 euros nos mercados locais). A Romagna deveria fazer mais vinhos assim.

Giovanna Gelmi Drei Donà, proprietária da Drei Donà Tenuta La Palazza, bela propriedade com 27 hectares de vinhas cultivadas nas colinas entre as cidades de Forli, Castrocaro e Predappio
Nas últimas duas décadas, houve um processo de descobrimento das potencialidades da Romagna vitícola entre as novas gerações, os filhos dos fazendeiros. “As pessoas estão se dando conta de que aqui dá para fazer bom vinho”, afirma Stefano Gabellini, dono da Tenula La Viola, em Bertinoro, nos arredores de Forli. “Quando era jovem, não sabia que a Sangiovese sozinha podia ser tão interessante.’ Embora a propriedade esteja nas mãos da família desde 1962, a produção de vinhos começou apenas em 1998. Dos 5 hectares cultivados, saem anualmente 35 mil garrafas, a maioria à base de Sangiovese, como o Pethra Honorii e o Colombarone, embora haja também um exemplar, o Particella 25, cuja espinha dorsal seja uma mistura de Merlot e Cabernet Sauvignon.
Com o objetivo de divulgar a produção local de vinhos, a Convito di Romagna e o Consorzio Vini di Romagna promoveram nos dias 20 e 21 de fevereiro deste ano a sexta edição de um evento concebido para a imprensa italiana e internacional, compradores de vinho e também o público em geral: o Vini ad Arte. O evento, que ocorreu no Museu Internacional de Cerâmica de Faenza, reuniu 35 produtores em 2011. Além de provar exemplares de Sangiovese e Albana nos mais variados estilos, o visitante do Vini ad Arte pode experimentar vinhos de variedades menos conhecidas, como as tintas Uva Longanesi e Burson ou a branca Pagadebit. Agendada estrategicamente em datas próximas a eventos similares da Toscana, que já contam com um público cativo de jornalistas e compradores vindos do exterior, a celebração anual do Sangiovese romanholo quer se firmar como mais uma parada obrigatória para os amantes e profissionais do vinho.
O ano de 2001 reserva provavelmente uma mudança na maneira de denominar as mais importantes DOCs da Romagna. Em vez de valorizar o nome da uva, a nova nomenclatura deverá colocar em relevo a região de produção, a Romagna, e seus terroirs. Dessa forma, a DOC Sangiovese di Romagna passará a se chamar Romagna Sangiovese. O mesmo ocorrerá com a DOCG Albana di Romagna, que virará Romagna Albana, e outras denominações de origem. “As mudanças deverão entrar em vigor antes de setembro deste ano”, afirma Giordano Zinzani, presidente do Consorzio Vini di Romagna. “Queremos fugir da padronização de gosto dos vinhos do Novo Mundo.” Outra alteração prevista é a possibilidade de os novos Romagna Sangiovese incluirem ainda em seus rótulos o nome de doze subáreas, que produziriam vinhos com características peculiares. É mais uma forma de tentar valorizar os possíveis terroirs romanholos.
Como se vê, forjar uma identidade própria no mundo cada vez mais globalizado do vinho não é um desafio apenas para os chamados países do Novo Mundo. Áreas menos renomadas da França ou da Itália, cuja produção vinícola foi historicamente ofuscada por tintos e brancos oriundos de regiões vizinhas mais famosas, como é o caso da discreta Emilia-Romagna em relação à famosa Toscana, enfrentam o mesmo problema no século XXI, quando conquistar consumidores fora das fronteiras nacionais é quase uma questão de sobrevivência. “Temos de falar um pouco mais dos nossos vinhos, e não apenas da comida”, diz Gian Alfonso Roda, presidente da Enoteca Regionale Emilia Romagna, associação criada em 1970 para promover a produção local e que hoje conta com 243 membros. Roda está em negociações com um empresário de São Paulo para abrir neste ano uma loja especializada em vinhos da Emilia-Romagna. Se o negócio sair, mais brasileiros poderão provar os tintos da outra terra da Sangiovese.
* Esta reportagem foi publicada na edição 141 da revista Bon Vivant.
O jornalista Marcos Pivetta viajou para Faenza a convite de uma associação de oito produtores locais de vinho, a Convito di Romagna
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