Segundo com ares de primeiro

Jean-Guillaume Prats fala sobre como é cuidar de uma das mais renomadas propriedades de Bordeaux, o Château Cos d’Estournel

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

28/07/2010
© Gladstone Campos
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Prats: "Creio que há uma divisão muito clara: de um lado, há os os cinco premiers crus e, do outro, os demais vinhos classificados"

Administrador geral do famoso Château Cos d’Estournel, uma das mais valorizadas propriedades vitícolas de Bordeaux, situada na comuna de Saint-Estèphe, Jean-Guillaume Prats, 41 anos, é um homem muito ocupado. Mas, no início de junho, em meio à campanha en primeur, que define os preços de comercialização dos principais rótulos de Bordeaux da safra passada para os négociants responsáveis por revender os vinhos para distribuidores ao redor do mundo, Prats ficou pouco mais de 24 horas em São Paulo. Ao lado de 80 produtores de vinho de 15 países, veio participar do 5º Encontro Mistral, evento promovido a cada dois anos pela importadora Mistral em São Paulo e no Rio de Janeiro. Na histórica e quase imutável classificação dos vinhos da sub-região bordalesa do Médoc elaborada em 1855, o tinto Cos d’Estournel obteve o título de deuxième cru, atrás apenas dos cinco míticos premiers crus: Haut-Brion, Lafite-Rothschild, Latour, Margaux e Mouton-Rothschild. Desde então o Cos, que já pertenceu à família Prats e hoje faz parte dos ativos do milionário Michel Reybier, comanda preços altíssimos por seu grand vin, o vinho principal que sai de seus 64 hectares de vinhedos (58% de Cabernet Sauvignon, 38% Merlot, 2% de Petit Verdot e 2% de Carmenère). Cerca de duas semanas após Prats deixar o Brasil, a safra 2009 do Cos passou a vendida do château para os négociants a 210 euros a garrafa, um dos mais altos preços pedidos por vinhos de Bordeaux da colheita passada. Para os consumidores finais, as garrafas do Cos 2009 vão, é claro, custar muito mais caro, visto que há intermediários entre o vinho que sai do château e o que é adquirido numa loja ou importador. Em sua curta estada no Brasil, Prats deu a seguinte entrevista ao Bon Vivant:

Ser um deuxième cru classé de Bordeaux é mais fácil ou difícil do que ser um premier cru?

Essa é uma questão interessante. Jantei na quinta-feira passada com um amigo que dirige um premier cru e que me recebeu nesse château. A conclusão desse jantar é que muito mais difícil ter uma performance acima da média sendo um grande deuxième do que um premier. Isso porque a classificação de 1855 é um obstáculo que impede que você suba (na classificação). Para subir, é preciso ter os ombros bem fortes para empurrá-lo. Mas, repondendo à sua questão, sim é muito difícil estar acima da média sendo um deuxième. E vou lhe dizer de uma maneira quase arrogante que, quando um deuxième cru recebe de um jornalista a mesma crítica que um premier cru, isso quer dizer que esse deuxième é melhor que esse premier.

Dividir os vinhos de Bordeaux de acordo com a classificação de 1855 ainda é válido?

Creio que há uma divisão muito clara: de um lado, há os os cinco premiers crus e, do outro, os demais vinhos classificados. Ser um cinquième ou deuxième cru, não faz muita diferença. A classificação é algo comparável à noção de aristocracia europeia. Um príncipe de sangue, um príncipe real, é um premier cru. Ele ocupa uma classificação à parte. Um barão, um conde, um marquês é mais ou menos a mesma coisa, como ocorre com os demais vinhos classificados. Não há muita distinção entre eles. Mas eles são aristocratas. O importante, nesse caso, é ser um cru classé em oposição aos crus bourgeois (uma classificação de menor prestígio, instituída em 1932, que inclui vinhos que ficaram de fora da lista de 1855).

Nesse contexto, ainda é um objetivo para o Cos ser um premier cru?

É, mas sabemos que a classificação muito provavelmente nunca será revista. Isso é um objetivo do ponto de vista do reconhecimento do consumidor. Queremos que o consumidor considere o Cos como um equivalente de um premier cru. Mas sabemos muito bem que nunca haverá um Cos com um rótulo dizendo que ele é premier cru. Por que sabemos disso? Porque ser premier cru é um título de aristocracia, é como ser da família real da Bélgica ou da Espanha.

Como você decide o preço de cada safra do Cos?

A fixação de preço dos grandes vinhos de Bordeaux se dá de um modo que é o menos racional, menos matemático, menos pragmático que se conhece entre os bens de consumo de luxo do mundo. Não há nenhuma análise pertinente a respeito disso. Há uma conjunção de elementos que levamos em conta na hora de fixar o preço: a qualidade geral da safra; como se saiu nosso vinho nessa safra; o número de caixas (de vinho) que você quer vender e quanto você quer manter em estoque; a força de nossa marca no mercado; a cotação do dólar em relação ao euro; o ambiente macroeconômico do momento; e tendência geral de preços dos grandes vinhos de Bordeaux. Tudo isso conta.

Você então olha o preço dos outros châteaux antes de decidir o seu?

Eu não disse antes. Todas esse elementos são analisados ao mesmo tempo, de forma concomitante. Se, por exemplo, o preço dos grandes vinhos de Bordeaux caiu 20%, você provavelmente não poderá aumentar em 10% o preço do seu vinho.

Definir o preço então é um quase como participar de um jogo?

Eu não utilizaria a palavra jogo. É um patchwork. O que quero dizer é que não posso simplesmente decidir que o meu vinho é bom e que eu vou cobrar tanto por ele. É preciso analisar todos esses aspectos do mercado e só então decidir.

Hoje qual é o mercado mais importante para o grand vin do Cos?

A Ásia, que representa 60% do mercado. Há 20 anos, acho que ainda era a Europa. Depois, passou a ser os EUA. E, há uns dois anos, é a Ásia, basicamente Singapura, Hong Kong e China.

Vamos deixar a questão dos negócios de lado e falar um pouco do vinho em si. Qual é a diferença de um Cos em relação aos outros grandes vinhos de Bordeaux?

O Château Margaux, por exemplo, tem aromas de violetas, de cerejas, de frutas vermelhas. É um vinho muito aristocrático e feminino. Nosso vizinho Château Lafite, faz vinho com aromas de caixa de charuto, perfumado. O Cos faz vinho muito potentes, masculinos, com aromas de especiarias. O Montrose, nosso outro vizinho, ao norte, faz vinhos parecidos com o Latour, com aromas de cereja e um coração de fruta. Cos faz um vinho aromas de especiarias e, há alguns anos, de estilo muito moderno.

O que é um vinho moderno para você?

É muito fácil explicar. É um vinho que já pode ser bebido alguns anos depois de ter sido engarrafado, talvez dois ou três anos depois. É um vinho fácil, que pode ser bebido rapidamente, mas que não perde sua capacidade de envelhecimento. É algo diferente do estilo clássico, que pedia 15 ou 20 anos para que os taninos se arredondassem. A modernidade é fazer vinhos com taninos redondos, com sutileza, madurez, equilíbrio, que possam ser bebidos ainda jovens. Esse é o caso dos nossos 2003 e 2005.

Quando e porque você decidiu mudar o estilo do vinho?

Isso ocorreu no ano 2000. Não mudamos o estilo por causa do gosto do consumidor. Foi uma mudança decorrente sobretudo do aquecimento global. Ele nos permite ter uvas bem maduras do ponto de vista fenológico aconteça o que acontecer. Há uns 15 anos não temos chuvas e tempo ruim durante a colheita. Podemos colher as uvas com polifenóis maduros. Isso nos permite fazer vinhos modernos, redondos. Não temos mais problema de madurez das uvas. Há 20 anos não era assim.

Até agora, então o aquecimento global é, para você, algo positivo?

Muito positivo. Mas representa uma mudança de estilo. Para o meu gosto pessoal, prefiro vinhos redondos, potentes, gordos, prontos para beber cedo, a vinhos mais austeros, como os nossos 1975 ou 1986, que são grandes vinhos, mas que precisam envelhecer muitos anos antes de estarem prontos para ser bebidos.

O senhor concorda com quem diz que o aquecimento global poderá introduzir novas cepas em Bordeaux, como a Syrah?

Acredito que não. Mas poderá mudar a forma como conduzimos o vinhedo. Talvez tenhamos que diminuir a exposição foliar das plantas, aumentar a densidade do vinhedo para aumentar o estresse e não é impossível que em alguns terroirs de Bordeaux genérico tenhamos que adotar a irrigação. Se as coisas continuarem assim, talvez tenhamos de falar disso daqui a 15 ou 20 anos. Não digo que seja a favor, mas acho que teremos de discutir a questão da irrigação no futuro. É um tema muito político. Não se pode esquecer que se fazem Cabernet e Merlot fantásticos num ambiente muito quente como o Vale do Napa (Califórnia) e lá não há chuva entre os meses de abril e outubro.

Quem é o consumidor de Cos?

É evidente que se trata de uma pessoa que tem dinheiro. Mas é alguém que compra um vinho com inteligência. Ele quer um premier cru, mas não quer pagar mil euros por uma garrafa. Quer um vinho de qualidade excepcional. Mas é um comprador inteligente, esclarecido, competente. Não é o comprador de um premier cru.

Qual é a importância do Brasil para o Cos?

Aqui há pessoas muito cultas e sofisticadas, que amam os grandes produtos do artesanato francês. Para nós, é importante falar com essas pessoas, que amam a moda, a decoração, as viagens e que amam os grandes vinhos. Se eu não pensasse assim, não teria feito uma viagem de ida e volta para ficar apenas 24 horas em São Paulo. Aqui a Mistral também faz um trabalho fantástico. Não queremos que todos os nossos clientes estejam apenas num país ou lugar. Queremos que o mundo todo conheça nossos vinhos.

Qual é o objetivo de um vinho como o Goulée, uma linha composta de um tinto e um branco de preço mais em conta feito pela equipe do Cos?

É propor um vinho de Bordeaux de qualidade muito boa que não seja caro, ao menos não muito caro. Na Europa, custa cerca de 30 euros a garrafa. É para os jovens, que estão se iniciando nos Bordeaux. Hoje chamamos o vinho de Goulée by Cos d’Estournel. No começo, era só Goulée. É um estilo de vinho com muita fruta, fácil, maduro, moderno, para se beber jovem. E, abre aspas, não é muito caro. Temos tido muito sucesso com ele. Na França, há uma cultura da vinha que é preciso contornar para se fazer um vinho como o Goulée. Tivemos de inventar uma nova garrafa para ele, pois não se trata de um vinho de château. Tecnicamente, é complicado fazê-lo. Tivemos que achar as vinhas, comprá-las e transportar as uvas para vinificá-las. É preciso ter meios para fazer isso. Nós tivemos condições de assumir esse risco. Mas outros não têm.

Qual é o futuro para região de Bordeaux como um todo?

Penso que muitas vinhas terão de ser arrancadas. Há vinhas plantadas em terroirs que historicamente não são de qualidade. Arrancar essas vinhas representa um problema humano, social e econômico a ser equacionado. Acredito que os vinhos realmente grandes de Bordeaux vão se tornar ainda maiores, mais disputados e, provavelmente, ainda mais raros. E, na faixa mediana do mercado, haverá um grande número de vinhos de boa relação qualidade/preço que o consumidor poderá comprar. Para resumir, diria que na ponta de cima, os grandes vinhos se tornarão ainda maiores e mais caros. Na outra ponta, a de baixo, muitos vinhos vão desaparecer. Será preciso arrancar vinhas com financiamento da União Europeia. Hoje as pessoas não conseguem mais ganhar a vida com essas vinhas. Essa situação gera dramas humanos e sociais extremos. O tonel de Bordeaux a granel de 900 litros da safra 2009, que é um vinho muito bom, vale hoje menos do que o seu custo de produção, cerca de 650 ou 700 euros. A única esperança para essas pessoas é arrancar as vinhas. Essa situação atinge de 5% a 10% da produção de Bordeaux.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de julho de 2010 do Bon Vivant

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A hora e a vez da África do Sul

Desde o fim do apartheid, o país sede do Mundial de 2010 vem se firmando como produtor de vinhos de qualidade

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

22/06/2010
© Groot Constantia

Vinhedos da Groot Constantia: vista para a Cidade do Cabo

A Copa do Mundo fornece um bom pretexto para conhecer uma força mais do que emergente no mundo dos tintos e brancos, os vinhos sul-africanos. Com um clima de estilo mediterrâneo, uma paisagem marcada por belas montanhas e vales e um remoto passado vitivinícola sem paralelo entre as nações de fora da Europa, a África do Sul voltou a ser um competidor respeitável no mercado internacional a partir de meados dos anos 1990, após o fim do apartheid e a redemocratização política do país, com a ascensão da maioria negra ao poder. Desde então, a terra do Mundial de 2010 se dedica a recuperar as décadas perdidas durante a vigência do odioso regime de segregação racial, quando se isolou do mundo e o mundo, em represália, se fechou a seus produtos, vinhos inclusive. Hoje o país produz anualmente cerca de 750 milhões de litros de vinho a partir de um vinhedo que se estende por 100 mil hectares entre os paralelos sul 27° e 34° (a cifra não inclui o produto de 25% a 30% da uva colhida que são destinados à fabricação de brandy, destilados em geral e sucos). As principais regiões vinícolas, como Stellenbosch, Paarl, Worcester, Robertson e a histórica Constantia, onde o primeiro parreiral foi plantado pelos conquistadores holandeses em 1655, se concentram na província do Cabo Ocidental, na ponta sul do país, a esquina do mundo em que o oceano Atlântico se encontra com o Índico.

Segundo dados da Wines of South Africa, entidade que promove os vinhos daquele país no exterior, a África do Sul exportava 50 milhões de litros da bebida em 1994, ano em que Neldon Mandela foi eleito presidente. No ano passado, a cifra foi oito vezes maior: 400 milhões de litros, mais da metade de produção nacional, foram destinados ao estrangeiro. No início de 2010, os sul-africanos comemoraram mais um feito. Pela primeira vez, ultrapassaram em volume de vendas os franceses no mercado inglês, um dos mais disputados do mundo e destino número um de seus vinhos no exterior. Eles se tornaram o quarto maior fornecedor da bebida aos consumidores britânicos, atrás apenas dos australianos, californianos (EUA) e italianos. O sucesso na exportação se deve à boa relação preço/qualidade dos tintos e brancos sul-africanos, dos quais ainda uns 40% são vendidos a granel, não engarrafados, a compradores sobretudo da Europa e da América do Norte. Embora haja hoje 600 produtores individuais que elaboram seu próprio vinho entre os 4 mil viticultores do país, cerca de 80% das uvas colhidas ainda são esmagadas pelas 59 cooperativas sul-africanas. Até os anos 1990, eram elas que ditavam literalmente os rumos da vitivinicultura local, determinando o que e quanto se podia vindimar. Esse tempo está ficando para trás e o consumidor atual não deve pensar que a pátria do Mundial de futebol de 2010 só tem vinhos simples e baratos a oferecer.

Com viagens regulares à África do Sul em seu currículo, tendo inclusive trabalhado lá durante parte de uma safra, Dirceu Vianna Junior, único brasileiro com o cobiçado título de Master of Wine, faz elogios à versátil produção vinícola daquele país. Segundo Vianna, os sul-africanos são capazes de elaborar vinhos de estilos distintos, desde os mais simples para o dia a dia até os de altíssima qualidade. “A África do Sul conta com uma grande diversidade de produtos: espumantes frescos no mesmo estilo de champanhe, excelentes brancos e tintos de uvas clássicas (francesas), além de vinhos de sobremesa e fortificados”, diz o brasileiro, que é diretor de desenvolvimento de vinhos da importadora inglesa Coe Vintners e mora em Londres há duas décadas. “A maioria dos consumidores associa a África do Sul às uvas Chenin Blanc (branca) e Pinotage (tinta). Mas eu acho que os melhores brancos deles são os Sauvignon Blanc e os tintos certamente os Cabernet Sauvignon e os Shiraz/Syrah. Não resta dúvida de que a maioria dos vinhos da África do Sul tem qualidade suficiente para se equiparar com vinhos da Austrália, Chile e Argentina. No geral, a indústria de vinhos sul-africana está bem mais adiantada do que a brasileira”.

A latitude em que ocorre o plantio de videira e a produção de vinhos na região do Cabo remete a uma vitivinicultuta de clima quente. Mas a influência de brisas marinhas e da fria corrente de Benguela ajuda a amenizar o calor nos vinhedos, muitos situados a menos de 50 quilômetros do mar. Como as chuvas estão concentradas entre o outuno e o inverno, entre maio e agosto, há necessidade de irrigar a uva no período de estiagem. “Os vinhedos têm problemas na época de seca e as empresas precisam estocar água”, diz Júlio Gobatto, assistente de promoção do projeto Wines from Brazil do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), que visitou a região de Stellenbosch em 2008. A África do Sul (ainda) faz mais vinhos brancos do que tintos. Atualmente 55% da produção é de brancos e 45% de tintos, embora isso esteja mudando rapidamente devido à grande taxa de replantio e reconversão de vinhedos nas duas últimas décadas. Em 1990, esses números eram 84% de brancos e apenas 16% de tintos. A Chenin Blanc, lá também chamada de Steen, é a cepa clara mais cultivada e representava 19% de todos os vinhedos do país em 2008, seguida da Colombard (12%). Mas variedades francesas mais nobres, como a Chardonnay (9%) e Sauvignon Blanc (8%) não param de ganhar terreno. No entanto, o crescimento mais espetacular nas últimas décadas se deu entre as uvas tintas. A Cabernet Sauvignon responde por cerca de 13% de todos os parreirais sul-africanos. A seguir, aparecem a Syrah/Shiraz (10%), a Merlot (6,5%) e a Pinotage (6%). Invenção sul-africana de 1925, fruto do cruzamento das uvas Pinot Noir e da Cinsault (chamada na África do Sul de Hermitage), a Pinotage não emplacou internacionalmente como uva emblemática do país. Dá um vinho escuro que tem mais detratores do que defensores.

É interessante notar que nessa renascença da vitivinicultura na África do Sul o estilo de vinho que primeiro conferiu fama mundial à região do Cabo tornou-se hoje quase uma mera relíquia de um tempo glorioso que nunca mais voltou. A história é bem conhecida, mas sempre vale a pena lembrá-la. Como os holandeses entendiam mais de beber e vender bebidas alcoólicas — a Cidade do Cabo era uma parada obrigatória dos mercadores da Companhia das Índias Orientais em suas longas viagens –, a vitiviniculta só teve um impulso para valer nas décadas de 1680/1690, quando desembarcaram ali um grupo de 150 franceses huguenotes. Esses, sim, eram do ramo e um século mais tarde um vinho sul-africano era aclamado na Europa, no coração vinícola do mundo. Na segunda metade do século XVIII, havia apenas um vinho elaborado fora da Europa que rivalizava em preço e prestígio com os melhores do Velho Mundo: o legendário, aromático e concentrado vinho de sobremesa oriundo dos domínios de Constantia, a antiga fazenda de 750 hectares fundada pelo segundo governador holandês Simon van der Stel, em 1685, nos arredores da Cidade do Cabo. Das terras próximas à encosta sul da Montanha de Mesa, elevação que é hoje um dos cartões-portais da África do Sul, saíam versões brancas e tintas (essas um pouco menos caras) de um néctar doce feito basicamente com uvas colhidas tardiamente da variedade Muscat Blanc à Petits Grains e, em menor escala, de uma mutação tinta dessa casta, da Chenin Blanc e da também tinta e obscura Pontac. Amado por nobres e pela aristocracia de toda da Europa, como Napoleão que o bebia em seu exílio na ilha de Santa Helena, o Constantia era o melhor vinho do hemisfério Sul. Foi, por assim dizem, o primeiro vinho de classe mundial elaborado fora do Velho Mundo.

O problema é que a fama do Constantia não durou tanto tempo assim. Já no final do século XIX esse vinho perdia prestígio, assim como o restante da produção sul-africana. Um dos motivos da decadência foi a chegada à África do Sul da filoxera, pulgão que ataca a raiz da vinha. Em 1886, em razão da doença, que também quase acabou com a vitivinicultura na Europa, milhões de parreiras foram destruídas na região do Cabo. O Constantia simplesmente desapareceu. A saída da crise se deu já no início do século XX, quando foram criadas as primeiras cooperativas de produtores. A vitivicultura renascia na África do Sul, mas sob o comando das cooperativas, que investiam mais em quantidade do que em qualidade. Com a adoção do regime do apartheid em 1948, o desinteresse internacional por tintos e brancos sul-africanos só fez aumentar. A partir dos anos 1990, com a redemocratização política, ocorreu o segundo renascimento do vinho na região do Cabo, dessa vez, assentado sob uma melhor e mais moderna base produtiva (embora nos parreirais o predomínio de trabalhadores negros ainda seja esmagador e os donos de vinícolas sejam quase todos brancos). Como forma de emular um passado de glórias, meia dúzia de produtores voltaram a produzir, há cerca de 20 anos, um vinho doce de sobremesa, nos moldes do antigo Constantia, nas mesmas terras em que esse vinho era elaborado no século XVIII. Hoje o vinho se chama Vin de Constance.

No Brasil, a presença de rótulos sul-africanos ainda é pequena. Por ora, eles são mais uma curiosidade do que um verdadeiro competidor no mercado nacional. Alguns supermercados têm uns poucos rótulos, em geral vinhos simples e baratos, como os que lançam mão de desenhos tribais para chamar a atenção do consumidor. As importadores trazem ao país, ainda discretamente, nomes mais conhecidos e renomados da vitinicultura da região do Cabo, alguns impronunciáveis para os falantes de português. A Mistral, a maior importadora do país, representa os vinhos da De Wetshof, da Boekenhoutskloof, da Kanonkrop (especialista em Pinotage) e da biodinâmica Reyneke. A Vinci traz os rótulos da Robertson Winery e da Engelbrecht Els. A Decanter comparece com a produção da Raka e a Grand Cru, com a badalada Glen Carlou. A Casa Flora/Porto a Porto traz os vinhos da Fleur du Cape e da Nederburg, que, aliás, fez um trio de rótulo especialmente para a Copa do Mundo: o Nederburg Twenty 10, nas versões branco, tinto e rosé. Procurando em outras importadoras, encontram-se ainda mais alguns nomes da terra de Mandela. Como se vê, apesar da oferta ainda pequena, dá para acompanhar sem problemas o Mundial de 2010 com vinhos sul-africanos.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de junho de 2010 do Bon Vivant

Leia também reportagem Show de bola e de vinhos

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Show de bola e de vinhos

Todos os principais países produtores de tintos e brancos estão disputando a Copa da África do Sul. Confira o que eles têm de melhor a oferecer

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

22/06/2010

França
O consumo interno cai, a concorrência de nações do Novo e do Velho Mundo no mercado externo é cada vez maior, os vinhos mais simples e de preço médio muitas vezes deixam a desejar. Apesar disso, nenhum país ainda é capaz de rivalizar com os franceses quando o assunto é produção de vinhos de classe mundial. Os melhores e mais caros rótulos de Bordeaux, da Borgonha, da Champagne e do Vale do Rhône ainda são referências de alta qualidade dentro de seus estilos de vinhos. Suas grandes uvas, tintas e brancas, são consideradas as mais nobres de todas.

Itália
Todo ano rivaliza com a França para ver quem produz a maior quantidade de vinho. Às vezes, ganha. Às vezes, perde. Historicamente, duas regiões de vinhos tintos se destacam: no norte, o Piemonte, com seus Barolo e Barbaresco feitos com a Nebbiolo; e no centro-norte, a Toscana com os tintos à base de Sangiovese e mais recentemente também de castas francesas, como a Cabernet Sauvignon e a Merlot. Tem uma forte indústria de espumantes (Prosecco e Asti). Vinhos de regiões de menor fama, inclusive os brancos, melhoraram muito nos últimos anos.

Espanha
É, com folga, o maior vinhedo do mundo, com 1,1 milhão de hectares de uvas plantadas. Em volume, é o terceiro maior produtor da bebida.
Embora ainda fortemente associado a uma casta, a tinta Tempranillo, e a uma região de vinhos, a histórica Rioja, o país hoje é um dos mais dinâmicos do planeta vinho. Rótulos de várias regiões, novas ou redescobertas, e de uvas autóctones da Península Ibérica, como a Mencía e a Albariño, são instigantes e de preço não tão assustador como outros vinhos europeus. Tudo isso sem falar na Cava, o espumante espanhol.

Estados Unidos
Quarto maior produtor de vinhos, com grande parte da vitivinicultura concentrada na Califórnia, o país está em vias de tornar (se é que já não se tornou) o maior mercado mercado consumidor da bebida. Seu forte são os Chardonnay e os Cabernet Sauvignon ricos e concentrados, com muita fruta e madeira. Mas é capaz de produzir diversos estilos de vinhos com bom nível (espumantes, rótulos com cepas do Rhône e italianas e até Pinot Noir no estado do Oregon, na costa oeste, perto da divisa com o Canadá). A uva tinta Zinfandel é uma especialidade da Califórnia.

Chile
Com um pequeno mercado interno, direciona grande parte de sua produção para a exportação. Tentou fazer da Carmenère a sua cepa tinta emblemática, mas a estratégia não deu muito certo. Produz bons tintos, alguns de classe mundial, com a dupla Cabernet Sauvignon/Merlot, e mais recentemente com a Syrah/Shiraz. Seus brancos, sobretudo os Sauvignon Blancs, têm boa aceitação internacional. Durante muito tempo, seus rótulos foram vistos apenas como boas opções de rótulos baratos. Hoje o Chile luta para mostrar que poder fazer vinhos de classe mundial.

Argentina
Pegou uma cepa francesa não muito conhecida, a tinta Malbec, e a transformou na casta emblemática de sua vitivinicultura nas últimas duas décadas. Falar o nome dessa uva faz qualquer enófilo hoje se lembrar de nossos vizinhos ao sul. Mas a Argentina é muito mais que Malbec. A Cabernet Sauvignon também vai bem em suas terras, assim como a branca aromática Torrontés, uma especialidade da província da Rioja. A Bornada, uva tinta de origem provavelmente italiana, é outra aposta. Mas, por ora, seus resultados são menos excitantes do que os da Malbec.

Portugal
É um pequeno produtor de vinhos se comparado à vizinha Espanha. Tem nos fortificados do Porto seu grande produto de fama mundial. No Brasil, tem um público cativo e histórico para seus rótulos, em especial os tintos, oriundo de diversas regiões (Dão, Alentejo, Douro, Bairrada). Sua produção de modernizou muito depois da entrada de Portugal na União Europeia, em 1986. Sua diversidade de castas autóctones, como a tinta Touriga Nacional, é impressionante. Dos vinhos europeus, é talvez o que ofereça atualmente a melhor relação preço/qualidade no Brasil.

Austrália
Sua especialidade são os tintos à base da cepa francesa Syrah, que os australianos preferem chamar de Shiraz. Na ala dos brancos, sempre investiu forte nos Chardonnay. Deu muito trabalho aos rótulos franceses de preço mais em conta nos últimos anos em vários mercados importantes, como o da Inglaterra. Sua produção é dominada por poucos conglomerados do vinho, que controlam várias vinícolas e marcas. Mais recentemente, sua fúria exportadora arrefeceu um pouco e teve de lidar com problemas locais, como a superprodução de vinhos.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de junho de 2010 do Bon Vivant.

Leia também reportagem sobre os vinhos da África do Sul

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Sob o sol da Índia

A vinícola indiana Sula Vineyards cresceu 45% ao ano nos últimos três anos, atendendo a um dos mercados mais promissores do mundo

Sílvia Mascella Rosa, do blog  Vinho Verde Amarelo

17/06/2010
© Divulgação
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Rajeev Samant, dono da Sula Vineyards: engenheiro indiano deixou os EUA para produzir vinhos em sua terra natal

Tudo na Índia é sui generis, a culinária, a religião predominante, o clima de monções, a arquitetura, a gigante e diversificada população, os conflitos políticos. Para completar esse quadro que já parece tão distinto, está o fato de que esse é o país que mais exporta softwares do mundo e agora também produz vinhos.

Com uma população superior a um bilhão de indivíduos, que consomem o equivalente a duas colheres de sopa de vinho por pessoa ao ano, a indústria vitivinícola indiana tem um enorme potencial, que começa a ser explorado por empresários locais e estrangeiros. As três maiores empresas do ramo são a Indage (Chateau Indage), a Grover Vineyards e a Sula Vineyards. As duas primeiras nasceram na década de 1980 e a última na segunda metade da década de 1990.  A Indage faz parte de um conglomerado industrial poderoso na Índia e acabou de adquirir a vinícola Loxton, no sul da Austrália, por U$ 60 milhões pagos à vista. A Grover Vineyards é a única das três grandes que só produz vinhos de uvas viníferas e tem a consultoria de Michel Rolland, além do suporte técnico da Veuve Clicquot. A mais nova das três, Sula Vineyards, é a número dois em volume de produção mas a primeira em vendas de vinhos considerados premium (vinhos vendidos por mais de 11 dólares a garrafa).

O proprietário da Sula Vineyards, Rajeev Samant de 42 anos,  me falou sobre as conquistas e os desafios desse novo mercado. Nascido na Índia, Rajeev é engenheiro formado pela Universidade de Stanford e trabalhou até o meio da década de 1990 na Oracle em São Francisco. Foi durante o período de faculdade que começou a tomar contato com os vinhos feitos nos EUA e a prestar atenção na indústria. De volta à Índia, resolveu se tornar fazendeiro plantando de mangas a flores nos 30 hectares de sua família na região de Nashik, a 180 km de Mumbai (antiga Bombaim), um planalto fértil na latitude 19 Norte, onde já eram cultivadas uvas de mesa. Observando a qualidade dessas uvas, Rajeev teve a idéia de plantar uvas viníferas. Para isso fez um estudo de solo utilizando a metodologia de classificação da Universidade de Davis na Califórnia e conseguiu o auxílio de Kerry Damskey, enólogo da universidade que aceitou o desafio da nova região. Em 1997 foram plantadas as primeiras mudas, vindas da Europa e dos EUA, e em 2000 a empresa lançou seu primeiro vinho, um Sauvignon Blanc.”Produzimos quatro mil caixas na primeira safra e hoje, oito anos depois, esperamos comercializar 250 mil caixas desse mesmo varietal” conta Rajeev. Além do Sauvignon Blanc, outras castas bem adaptadas na região são a Shiraz, a Cabernet Sauvignon, a Malbec e a Viognier.

O logotipo da empresa, um sol estilizado e sorridente, nada conta sobre os desafios enfrentados pela Sula nesses dez anos de existência. A Índia é um país extremamente burocrático e lento para as questões comerciais. Assim, abrir uma empresa é um périplo para o proprietário. No caso da vinícola, as licenças de funcionamento demoraram anos para serem concedidas pois o governo argumentava que uma indústria de vinhos não era necessária em uma área produtora de uvas de mesa. Outro desafio digno de Shiva (o deus criador e destruidor) é o mercado. As grandes redes de supermercados não podem vender vinhos em suas gôndolas, somente as lojas especializadas em bebidas, em geral lugares antiquados e envelhecidos, que amedrontam as mulheres da classe média (potenciais compradoras). Assim, as vinícolas têm que investir também na abertura de lojas mais modernas e atraentes, além de lutar para que alguns poucos mercados possam exibir seus vinhos em suas prateleiras.

Tal qual outros países que somente nas últimas décadas têm desfrutado de um crescimento econômico mais significativo, na Índia também o consumo de vinhos é ligado às elites, classe ainda mais fechada por lá do que em outros países. Assim, fazer com que o vinho seja uma bebida popular é um desafio e tanto. Principalmente se a isso for agregado o fato da Índia ser uma ex-colônia britânica e o apreço ao scotch não ter deixado o país junto com os colonizadores. A Índia permanece imbatível como maior mercado para whisky do mundo.

O empresário indiano, no entanto, está muito otimista com o prognóstico do país. Sua empresa cresceu 45% ao ano nos últimos três anos e os planos de ampliação do plantio e das instalações  vem saindo do papel com a ajuda de investidores internos. “Para a Sula, o mercado interno é o mais importante e responde por quase 90% de nossas vendas. Os outros 10% vão principalmente para o Japão, que aprecia muito nossos vinhos. E já é possível perceber uma mudança de mentalidade entre a nossa população, que vem preferindo bebidas menos alcoólicas e mais sutis” explica Rajeev.

Um dos sinais de que o vinho vem sendo melhor conhecido no país está em dois pontos distintos: empresas poderosas no ramo, como a Diageo, já estudam parcerias com vinícolas indianas para produzir vinhos no país e atender ao crescente mercado. Outro sinal é a procura por cursos de formação, tanto no país como no exterior. Neste ano formou-se a primeira mulher indiana a participar do curso ‘Master of Wine Management’ em Bordeaux. Na turma que inicia agora em outubro já estão mais dois indianos.  Ashwini Patil, formada em Economia, começou a se interessar por vinhos quando morava na Europa há dez anos e descobriu ali uma possibilidade de profissão. “Fiquei encantada com o ritual do vinho, com a forma como ele agrega pessoas diferentes. Para mim era a desculpa que eu queria para conhecer melhor outras culturas e outros países” contou Ashwini. Ela saiu da universidade com diversas propostas de trabalho em seu país, mas tem um projeto pessoal mais ambicioso, o de colocar a Índia definitivamente no mapa do mundo do vinho, não só entre os consumidores internos (fazendo com que o país importe vinhos de melhor qualidade) e conheça melhor seus próprios produtos, como levando ao mundo os vinhos de seu país.

Para concretizar esse projeto Ashwani acredita que os produtores indianos deveriam dar uma boa pesquisada no que os australianos chamam de “Estratégias para o Vinho 2025″, onde foram descritos os objetivos da indústria, desde os agricultores até os que constroem a imagem das marcas, em um esforço conjunto para conquistar e liderar mercados. “Precisamos de uma estratégia muito clara para produzir vinhos que irão agradar ao mercado globalizado e aproveitar o desabrochar de nossa economia, que possibilita conquistar desde já uma classe de gente mais jovem e disposta a gastar com artigos mais luxuosos, como o vinho” conta a indiana.

Resta saber se o governo indiano vai ser capaz de dar a atenção que a indústria necessita, criando leis que regulem a produção, a qualidade e o comércio e se os vinhos produzidos no país vão passar em sua prova máxima: as taças e os paladares de seus conterrâneos e dos estrangeiros.

“Nós, dos países emergentes do mundo do vinho (Índia, China e Brasil), vamos estar muito ocupados nos próximos anos, pois a nossa indústria e nossos mercados vão crescer muito, muito rápido” afirma Rajeev. “E isso é muito excitante para todos nós”.

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A feira que virou pop

Expovinis 2010 teve grande presença de vinícolas brasileiras e personagens da TV, como Galvão Bueno

Marcos Pivetta/www.jornaldovinho.com.br*

17/06/2010

Pânico na TV, Galvão Bueno e vinho brasileiro. Seria um claro exagero nacionalista resumir a edição deste ano da Expovinis, que ocorreu em São Paulo entre os dias 27 e 29 de abril, com esses três destaques da ala verde-amarela. Afinal, a França novamente compareceu ao evento com uma delegação de respeito, assim como Portugal, Argentina e algumas regiões da Espanha. E havia ainda os tradicionais stands dos importadores, novos e antigos, pequenos e grandes. Mas, tomando emprestado o bordão favorito do brasileiro mais famoso e poderoso do momento, o presidente Lula, nunca na história deste país o ibope do vinho, inclusive do nacional, esteve tão em alta. Quando dois fenômenos da audiência televisiva se cruzam numa feira de vinho na capital paulista (o povo do Pânico para, como sempre, fazer seu humor escrachado e Galvão para lançar um tinto e um espumante brasileiros elaborados em parceria com a Miolo), isso é um sinal de que algo está acontecendo com a imagem da bebida em solo pátrio. Elitista quase que por natureza, o vinho virou um assunto pop e ampliou suas fronteiras.

A feira deste ano parece ter intensificado algumas tendências que já despontavam na edição de 2009, quando, depois de anos de relativa timidez, os produtores brasileiros finalmente deram sua primeira grande investida na Expovinis. Agora, com certa folga, é possível dizer que os espaços ocupados por vinícolas nacionais foram os mais concorridos do evento. Uma mudança e tanto em relação aos primeiros anos da feira, quando quase tudo se resumia a rótulos do exterior expostos em stands de importadores ou de produtores de fora à procura de um representante comercial no Brasil. “A boa presença dos produtores do Brasil na Expovinis se deve a um esforço do Ibravin (Instituto Brasileiro do Vinho) que vem sendo feito nos últimos cinco anos”, afirmou Domingos Meirelles, diretor da Exponor Brasil, empresa organizadora do evento. “No passado, havia quem acusasse a feira em São Paulo de ser um polo difusor do vinho importado. Aos poucos, essa visão foi se alterando. Hoje a feira é vista pelas vinícolas brasileiras como uma importante ação de marketing”. Segundo Meirelles, a presença de público neste ano na Expovinis foi  similar à de edições anteriores: cerca de 16 mil pessoas visitaram os 250 stands da feira. O primeiro dia do evento, reservado a profissionais do setor, foi o de maior afluência de pessoas.

Os produtores brasileiros compareceram à feira em stands de todos os tipos. Havia uma espaço grande e coletivo, com mais de 500 metros quadrados, organizado pelo Ibravin, em que 44 vinícolas nacionais (do Rio Grande do Sul, de Santa Catarina e do Nordeste), expuseram seus rótulos. Segundo o Ibravin, onze vinícolas nacionais participaram pela primeira vez da feira, algumas delas recém-criadas, como as gaúchas Sozo (da região de Campos de Cima da Serra), a Guatambu (de Dom Pedrito, na Campanha) e a catarinense Krans (de Treze Tílias). “Fizemos bons contatos na feira”, disse o enólogo Gilberto Pedrucci, da Casa Pedrucci, de Garibaldi, outra pequena vinícola que debutou na Expovinis. Além do stand do Ibravin, vinícolas grandes (Miolo, Salton, Aurora e Valduga) e pequenas (Lidio Carraro e Pizzato) que há anos participam da feira também não deixaram de comparecer nesta edição. A quantidade de novos vinhos lançados por essas empresas foi impressionante: um tinto e um espumante da linha 100 Anos da Salton; Merlot DNA 99 (safra 2005) da Pizzato; nova linha Almadén, agora feita pela Miolo; vários novos rótulos de Encruzilhada do Sul da Lidio Carraro. Como no ano passado, o Brasil também fez bonito na escolha dos melhores vinhos da feira, no concurso Top Ten. Os jurados elegeram o Villagio Grando 2008, feito pela vinícola Villagio Grando de de Santa Catarina, o melhor Chardonnay da feira, batendo seus concorrentes do exterior. O título de melhor tinto nacional foi para o Sesmarias 2008, da Miolo, e o de melhor espumante brasileiro para o Gran Legado Brut.

Entre os expositores estrangeiros, chamou atenção novamente o grande stand da França, onde não faltaram produtores em busca de um importador. “Se não entrarmos no mercado brasileiro agora, daqui a quatro anos será muito tarde”, disse Philippe Maurette, da AmVM, empresa francesa especializada na exportação de rótulos de várias regiões gaulesas. Maurette já tinha estado na Expovinis de 2009, mas, devido à crise econômica na Europa, preferiu investir em mercados mais tradicionais e não continuou o trabalho de prospecção no Brasil. Voltou neste ano à feira disposto a realmente comercializar seus vinhos por aqui. O produtor Marcel Georges, dono do Domaine du Château de L’Hers, na região de Châteauneuf-du-Pape, no sul do Vale do Rhône, estava impressionado com o perfil do público que veio provar seus rótulos. “Há muitos jovens brasileiros que se interessam por vinho”, comentou Georges, cujo tintos e brancos entraram no ano passado para a carta de vinhos do Palácio do Eliseu, em Paris, a residência oficial do presidente da França e sede do governo.  Num evento do porte da Expovinis, é impossível agradar a todos os expositores. O espanhol Francisco Pardo Tolosa, da bodega Pardo Tolosa, que tinha um pequeno espaço dentro do stand coletivo da região de Castilla-La-Mancha, chegou ao último dia da feira com cara de poucos amigos. “Recebi muitas visitas de enófilos, donos de restaurantes, jornalistas, mas poucas de importadores”, esbravejou Pardo Tolosa. Domingos Meirelles, da Expovinis, tem uma resposta pronta para esse tipo de queixa: “Numa feira, o importante é mostrar seus produtos para as pessoas. Se um dono de restaurante ou enófilo gostar do vinho, ele vai falar com um importador para trazer esse rótulo para o Brasil”.

Na adega com Galvão
Locutor esportivo apresenta vinhos de sua vinícola na Expovinis

Os críticos de Galvão Bueno provavelmente gostariam de vê-lo devidamente engarrafado, arrolhado e posto de lado para envelhecer por anos no canto mais escuro de uma adega secreta. Bem, amigos, eis a má notícia para os detratores do locutor esportivo mais polêmico do Brasil: Galvão continua solto e agora virou até produtor de vinhos. Em parceria com a Miolo, e com consultoria do francês Michel Rolland, lançou dois rótulos, um tinto da safra 2009 (Bueno Paralelo 31) e um espumante (Bueno Cuvée Prestige), que carregam o nome de sua vinícola, a Bellavista Estate Bueno, situada na Campanha Gaúcha, perto da fronteira com o Uruguai. O tinto é um corte (blend) de uvas Cabernet Sauvignon (60%), Merlot (30%) e Petit Verdot (10%) oriundas de vinhedos da Fortaleza do Seival, a propriedade da Miolo em Candiota, na Campanha Gaúcha. O espumante é um blend elaborado com uvas Pinot Noir e Chardonnay plantadas em Garibaldi, dentro do Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha. “É a realização de um sonho”, disse o sorridente Galvão, apreciador dos tintos de Bordeaux, no dia 27 de abril, quando esteve no stand da Miolo da Expovinis para promover seus rótulos. Oficialmente, os vinhos do Galvão serão lançados apenas em agosto. Mas o locutor é notícia por onde passa e sua visita à feira provocou deslocamentos de ar e de pessoas ao seu redor.

Uma pequena alternativa
Feira Expovinhoff reúne 17 expositores em São Paulo em evento na semana da Expovinis

No dia 26 de abril, véspera do início da Expovinis, o Espaço Pandoro, em São Paulo, foi palco da primeira edição de um pequeno evento de vinhos, a Expovinhof, organizado pela jornalista Fernanda Fonseca e por Beto Duarte. A minifeira, que reuniu 17 expositores, entre os quais uma vinícola nacional (Lidio Carraro), se propõe a ser um evento independente e (quase) pararelo à Expovinis, nos moldes dos que ocorrem na Itália e na França em datas próximas à Vinitaly e à Vinexpo. A data da Expovinhoff foi escolhida justamente na semana da Expovinis para aproveitar a presença na capital paulista de enófilos, donos de restaurantes, proprietários de importadores e jornalistas de todo o país. Além da oportunidade de degustar vinhos de pequenas importadoras, como a SmartBuys Wines (que traz ao Brasil uma boa seleção de rótulos da Califórnia), a Cave Jado (só vinhos franceses) e a Empório Sorio (vinhos da Córsega), a Expovinhoff promoveu uma série de palestras com produtores e especialistas em vinho. Sempre é possível apontar pequenas falhas de organização na estreia de uma feira alternativa. Mas  deslizes são normais em iniciativas que acabaram de nascer. O importante é a Expovinhoff não ficar apenas na primeira edição. Que haja uma segunda feira em 2011 e que outros a imitem.

*Esta matéria foi originalmente publicada na edição de maio de 2010 do Bon Vivant.

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